Rita
me pareceu uma incógnita. Estranhamente incógnitas não são comuns pra mim.
Costumo dizer que “sinto” as pessoas. Tenho facilidade pra sentir o que as
pessoas querem; em perceber o jeito como encaram determinadas coisas e até se
são “flor que se cheira”, como dizem os antigos.
Trato
tudo que é natural, naturalmente. Isso é natural pra mim. Não consigo evitar
essa sensação de saber das pessoas sem ao menos ter conversado. Acontece mais
ou menos assim: bato o olho e já crio o perfil. Esse é desonesto, deve roubar da
própria mãe. Esse tem grande capacidade, só precisa de força de vontade; essa
não vai ser muito feliz no amor, mas o sucesso profissional é uma certeza;
aquela outra não sabe o valor das coisas que tem. E por aí vai, uma variedade
de perfis são criados quase que instantaneamente. E, sempre que precisei seguir
minha intuição, nunca me decepcionei.
Mas
a Rita tinha uma muralha invisível em volta dela que não permitia que eu a
desvendasse. E, ainda mais curioso, parecia conhecer essas minha intuições!
Olhou-me nos olhos como se quisesse dizer “eu sei do que tu és capaz, mas não
comigo”.
O nome Rita me lembrou do filme Nove Rainhas. No filme, um personagem
principal tentava lembrar exaustivamente a letra de uma música de Rita Pavone, Il
ballo del mattone.
Parafraseando a letra da música, “com algumas pessoas danço twist; com
outras danço rock; e com outras definitivamente não acerto o pé!” Que tipo de
música dançaria com Rita se não consigo desvendá-la?
Não dançaria nenhuma. A minha habilidade de intuir sobre pessoas e a
habilidade dela em saber quem intui sobre ela deve ser a mesma habilidade usada
de forma diferente. Não dançaria nenhuma música! Pois devemos ser muito
parecidos para podermos diferenciar quem é um e quem o outro. E as danças mais
bonitas são aquelas que são dançadas por duas pessoas, de formas diferentes de
tal forma que se percebam as individualidades e que se possa comtemplar a
harmonia e a (des) sincronia delas. Estou chegando à conclusão que o modo que
as pessoas dançam é muito mais importante do que as pessoas em si. E tu, de que
forma estás dançando?
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