quinta-feira, 17 de março de 2011

Meu cachorro preferido

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A língua do povo conta que na Avenida da Igreja, famosa avenida da cidade, existe uma pessoa que vive dos restos de alimento dos outros, um ser desgraçado pela vida, esquecido pela natureza e perdido de si mesmo.

Charles acordou cedo, mesmo sem entender. Não era compreensível que depois de muitas doses de uísque, coquetéis refinados, muita música, comida da melhor qualidade e outros excessos que seu organismo já estaria descansado. Isso não era comum.
Aproveitou a disposição, desligou o ar condicionado que havia deixado o quarto muito abafado, aumentou o volume do seu rádio. Correu para a cozinha cantarolando a música que estava tocando. Colocou o café pra passar. Olhou na porta da geladeira o calendário grudado – ainda faltavam alguns dias para a empregada retornar das férias, e isso significava que ele teria que fazer uma coisa que detestava: limpar a geladeira!
Cantarolando e tomando café, foi adiantando seu penoso serviço. Tirou duas sacolas cheias de comida. Não estavam velhas nem estragadas. Apenas eram de dias antes, algo que poderia ser reaproveitado, mas Charles não era do tipo que comia nada repetido.

Frederico já estava começando a sentir suas mãos. A noite havia sido muito fria e chuvosa. O fino pano que usava para se cobrir estava encharcado por causa do vento que levava respingos de chuva.
Sentado entre galhos, Frederico pode reconhecer o barulho. O ruído lhe era muito familiar – o carro importado que semanalmente lhe levava gostosuras. Mal podia esperar a sacola ser lançada pelo motorista do carro, e caso tivesse sorte, aquela pessoa abençoada jogaria mais que uma sacola, o que dava a ele vários dias de comida garantidos.

Logo que desceu do carro, Charles foi surpreendido por um forte abraço de seu filho mais novo, que lhe disse:
- Pai, onde tu estavas? Pensei que não fosse me levar pra escola, já ia te ligar...
- Bom dia filhão. – disse Charles - Não te preocupa, só fui alimentar meu cachorro preferido.

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