A música que encabeça esse post, All Is Full Of Love, cantada pela
islandesa eclética Björk, diz para olharmos ao nosso redor, pois tudo está
cheio de amor. “Você tem que confiar, pois pra você será dado o amor”. Não sei
até que ponto Björk está sendo realista ou poética, o fato é que há muito tempo
não sinto o amor a minha volta.
No que se baseiam os relacionamentos atuais? E não
estou me referindo aos amorosos ainda, apenas relacionamentos em geral. Todo e
qualquer tipo de relacionamento é baseado em algo. Muitos são relacionamentos
profissionais, que não exigem muito além de um pouco de respeito e
responsabilidade. Outros são de amizade mútua. E dizem que esse tipo dá pra se
contar nos dedos!
Os familiares são complicados. Sempre é uma relação
de amor, de ódio, de tolerância e paciência. Alguns te sufocam, outros te
exaltam. Alguns merecem respeito e outros não merecem nem mesmo serem lembrados. Mas o comum é a mistura de tudo isso.
Os amorosos são protagonistas. Das novelas, das
revistas, das conversas despreocupadas e dos desabafos no meio da noite.
Ninguém vive sem amor. Até a criatura mais fria precisa e sente algum tipo de
sentimento.
Eu disse antes que não sentia o amor a minha volta
– e não sinto. Eu vejo o amor de um
pai para com seus filhos, vejo namorados se beijando, vejo velhinhos andando de
mãos dadas, vejo o brilho nos olhos de uma pessoa admirando a outra. Mas não consigo sentir. Existe uma barreira.
Talvez Björk também veja o amor a sua volta, mas não consiga sentir. Talvez na
tentativa de sentir, ela tenha feito um clipe tão bonito dessa música, se
transformando em robô – um robô que ama.
O exercício de imaginar seres humanos como robôs
não é tão absurdo assim. A rotina é fatigante, os problemas são tantos, o mundo
capitalista é tão cruel e parece que nos obriga a querer sempre mais.
Querer mais dinheiro, mais riqueza, mais status, mais glamour. Querer sempre
alguma coisa material. Criar um foco, e conseguir conquistá-lo.
O problema de tanta ambição é que geralmente
falhamos. Criamos um objetivo e não conseguimos alcançá-lo. E, quando
alcançamos esse objetivo, ainda estamos vazios, e outro objetivo tem-se que ser
criado para então sermos felizes. Doce ilusão. Cria-se um robô de si mesmo. Um
robô ambicioso. E esse robô entra em um círculo vicioso de busca de felicidade.
Felicidade essa que nunca chega, criando frustração e tédio.
Não existe nenhum problema em querer mais. Querer
mais é saudável e nos força a autosuperação. O que realmente cria a
frustração é querer as coisas erradas, de tal forma que nunca poderemos parar
para aproveitar aquilo que já conseguimos.
E o círculo vicioso não é necessariamente material.
Posso estar buscando um amor e sempre encontrar amores errados. E então outro
amor “tem que” vir no lugar do antigo em substituição daquele. Posso estar
viciado em um relacionamento afundado, e não ter coragem para dar espaço que
ele se vá, e ainda assim acreditar que esse amor tem algum valor.
Se sabemos que somos robôs que sentimos, ou seres
humanos que estamos um pouco congelados, já é meio caminho andado para mudarmos
essa situação, fazendo com que o gelo do coração se derreta com afeto. E que a
forma robotizada vá se transformando em uma forma mais arredondada, digna dos
seres humanos. O poder de mudar está dentro de cada um, em permitir-se sentir.
Já estou me permitindo sentir, e você?

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