quinta-feira, 24 de março de 2011

Robóticos

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A música que encabeça esse post, All Is Full Of Love, cantada pela islandesa eclética Björk, diz para olharmos ao nosso redor, pois tudo está cheio de amor. “Você tem que confiar, pois pra você será dado o amor”. Não sei até que ponto Björk está sendo realista ou poética, o fato é que há muito tempo não sinto o amor a minha volta.
No que se baseiam os relacionamentos atuais? E não estou me referindo aos amorosos ainda, apenas relacionamentos em geral. Todo e qualquer tipo de relacionamento é baseado em algo. Muitos são relacionamentos profissionais, que não exigem muito além de um pouco de respeito e responsabilidade. Outros são de amizade mútua. E dizem que esse tipo dá pra se contar nos dedos!
Os familiares são complicados. Sempre é uma relação de amor, de ódio, de tolerância e paciência. Alguns te sufocam, outros te exaltam. Alguns merecem respeito e outros não merecem nem mesmo serem lembrados. Mas o  comum é a mistura de tudo isso.
Os amorosos são protagonistas. Das novelas, das revistas, das conversas despreocupadas e dos desabafos no meio da noite. Ninguém vive sem amor. Até a criatura mais fria precisa e sente algum tipo de sentimento.
Eu disse antes que não sentia o amor a minha volta – e não sinto. Eu vejo o amor de um pai para com seus filhos, vejo namorados se beijando, vejo velhinhos andando de mãos dadas, vejo o brilho nos olhos de uma pessoa admirando a outra. Mas não consigo sentir. Existe uma barreira. Talvez Björk também veja o amor a sua volta, mas não consiga sentir. Talvez na tentativa de sentir, ela tenha feito um clipe tão bonito dessa música, se transformando em robô – um robô que ama.
O exercício de imaginar seres humanos como robôs não é tão absurdo assim. A rotina é fatigante, os problemas são tantos, o mundo capitalista é tão cruel e parece que nos obriga a querer sempre mais. Querer mais dinheiro, mais riqueza, mais status, mais glamour. Querer sempre alguma coisa material. Criar um foco, e conseguir conquistá-lo.
O problema de tanta ambição é que geralmente falhamos. Criamos um objetivo e não conseguimos alcançá-lo. E, quando alcançamos esse objetivo, ainda estamos vazios, e outro objetivo tem-se que ser criado para então sermos felizes. Doce ilusão. Cria-se um robô de si mesmo. Um robô ambicioso. E esse robô entra em um círculo vicioso de busca de felicidade. Felicidade essa que nunca chega, criando frustração e tédio.
Não existe nenhum problema em querer mais. Querer mais é saudável e nos força a autosuperação. O que realmente cria a frustração é querer as coisas erradas, de tal forma que nunca poderemos parar para aproveitar aquilo que já conseguimos.
E o círculo vicioso não é necessariamente material. Posso estar buscando um amor e sempre encontrar amores errados. E então outro amor “tem que” vir no lugar do antigo em substituição daquele. Posso estar viciado em um relacionamento afundado, e não ter coragem para dar espaço que ele se vá, e ainda assim acreditar que esse amor tem algum valor.
Se sabemos que somos robôs que sentimos, ou seres humanos que estamos um pouco congelados, já é meio caminho andado para mudarmos essa situação, fazendo com que o gelo do coração se derreta com afeto. E que a forma robotizada vá se transformando em uma forma mais arredondada, digna dos seres humanos. O poder de mudar está dentro de cada um, em permitir-se sentir. Já estou me permitindo sentir, e você?

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