Onde estou? Perguntava-me incessantemente. Eu sabia exatamente onde estava, com quem estava, mas era uma pergunta mais ampla do que saber minha localização no mapa. O que eu estava fazendo ali? Talvez fosse a falta de álcool que estava fazendo com que eu visse aquilo de uma outra forma, com mais clareza talvez.
E não tinha nada para se fazer lá. Apenas esperar o tempo passar, e fingir que a festa estava ótima. Não estava nem um pouco boa, eu estava lá como se fosse uma ironia do destino. Já tinha prometido pra mim mesmo que daria um bom tempo desses lugares, e lá estava eu, com o sorriso mais falso do mundo tentando dançar músicas horríveis.
Além disso, era uma exposição de bizarrices. Beeshas ridículas usando roupas escandalosas, caras totalmente sem noção mostrando um corpo mais ou menos, infantilidade, drogas, e os mesmos rostos de sempre. De tudo isso já estava enjoado.
E então, ele chegou. O Sem Fala. E de todos os que estavam ali, nenhum chegava aos pés dele. Vestido discretamente de preto e calça jeans, passou por mim com outro amigo, como se fosse o rei da festa. E eu adoro ostentação de quem pode. Ele teve o poder de fazer meu corpo amolecer, meu coração bater em descompasso e me deixar muito, muito triste. Pois aparentemente estava acompanhado, e teria que agüentar mais algum tempo com aquela frustração.
Nunca forcei a barra com o Sem Fala. Quando nós ficamos, foi maravilhoso, espontâneo e louco ao mesmo tempo, ainda que no começo achasse ele meio pegajoso – no começo. Eu detesto gente pegajosa, gente que não te deixa respirar, gente que corre atrás. Eu simplesmente abuso de quem é assim, e largo quando não me convém. Mas com o Sem Fala foi diferente. Curtimos um ao outro, e sumimos. Falávamos por sms de vez em quando, mas nada concreto, apenas algo que talvez dessem certo – ou não.
Ele lá em Capão, e eu aqui em Tramandaí. Ele nunca mudou uma vírgula da vida dele por minha causa. Procurava-me quando era o momento, e eu também. Dizia palavras bonitas, e eu não acreditava. Porque não é muito fácil acreditar em palavras bonitas hoje em dia.
E lá estava ele, na festa, longe de mim, se divertindo muito. Eu estava tão triste, que não consegui simular outro sentimento. Geralmente consigo disfarçar o sentimento que quero. Posso estar feliz e parecer triste, estar triste e ser a pessoa mais contente do mundo, posso detestar alguém e me passar por melhor amigo, mas mesmo esse dom com que a natureza me presenteou não estava funcionando naquela situação. Não consegui colocar meu melhor sorriso para fingir que estava contente.
Peguei meu celular, eu precisava desabafar aquilo com alguém. Gritei por Lee Stardãr, e redigi a mensagem: “e o Sem Fala é o cara mais interessante da festa. Sabe aquela coisa boa de sentir o corpo amolecer? Pois é. Senti isso quando o vi hoje. Isso acontece porque eu nunca consegui controlá-lo. Insensato coração!”.
E como eu não podia deixar de provocar/demonstrar para ele o quanto ele mexe comigo, mandei uma cópia da mensagem pra ele também. Ou seja, os dados estavam sendo lançados. Podia fingir que tinha mandado pro contato errado. Mas eu nunca faço nada que não tenha algum motivo. Sou oportunista e no jogo da sedução às vezes tem-se que ceder. Os dados foram lançados. Era uma questão de tempo, pensei.
E por algum tempo tudo continuava igual, música ruim, gente ridícula na minha volta, e eu naquele galpão parecendo uma estátua.
Foi quando ele passou propositalmente por mim. Parou e cobrou-me por não ter cumprimentado ele – sempre usava essa tática. Eu expliquei que era porque a gente nem tinha chegado perto ainda, e que ele estava muito ocupado se divertindo. Perguntei o mesmo pra ele, e a resposta foi igual a minha. Sim. Falando no ouvido me despertou uma vontade enorme de empurrar ele para a parede e começar a beijar. Trocamos algumas palavras. Ele mexeu no celular, fingiu que alguém ligando, pra me dar certeza de que tinha lido a mensagem. Eu desconversei e dei a desculpa de que iria ao banheiro – corri dali. Não estava preparado para tanta informação assim.
Fiquei por ali dançando com alguns amigos e quando vi já estava sozinho novamente. Gente inquieta! E ele chega por trás, perguntando se eu já tinha encontrado alguma coisa ali. O que? Perguntei. E ele me questionava o que eu estava fazendo ali. Eu estava ali por um acaso, um milagre talvez. E não tinha encontrado nada, a não ser um cara que vê o mundo de uma forma muito parecida da minha, e que assim como eu não se apega a qualquer um. O beijo aconteceu, por uns minutos. Ele disse “bom, vou indo”. Eu segurei o braço dele, levei-o prum canto qualquer da parede e fiz o que eu queria ter feito desde o primeiro momento. Beijei muita aquela boca que já foi de muitos, alisei muito aquele corpo que um dia já experimentei, e abraçando-o carinhosamente desejei com todas as minhas forças que um dia ele encontre alguém que lhe faça feliz, já que não foi dessa forma que aconteceu conosco.
"Nós vamos nos encontrar de novo" ele disse, depois do último beijo. "Volta lá e arrasa" eu disse. Fui embora, não podia perder minha carona. Feliz e triste ao mesmo tempo, mas muito, muito aliviado, pois sei que o Sem Fala vai embora fazer o mundo girar, e de pessoas assim que o mundo precisa. Parabéns, você conquistou um lugar de destaque, Sr. Sem Fala!

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